Por Josué Amador |

A Comissão Especial de Governança Corporativa do CRA-RJ realizou pesquisas sobre o ensino da Governança e a atuação dos profissionais da Administração nesse setor. Os resultados chamam a atenção para a necessidade de uma maior compreensão e envolvimento da categoria nesse segmento crucial nas organizações.

Segundo o coordenador adjunto da Comissão e coordenador das pesquisas Roberto Ribeiro, mestre em Administração, os resultados não precisam ser considerados de alto grau de alarme, mas precisam de atenção. Ele acredita que as faculdades deveriam dar um foco maior no tema devido a sua relevância para as organizações e para uma melhor construção da visão organizacional dos acadêmicos, futuros profissionais.

“Observou-se baixo contato declarado por Administradores (4%) e Graduandos (9%) com a Governança Corporativa, durante a graduação. Devemos levar em conta que o conhecimento de apenas partes isoladas deste conteúdo, quando há, tende a não ser suficiente para propiciar a compreensão do todo ou a real dimensão deste campo da Administração”, declarou.

Ribeiro explicou que as pesquisas apontaram a busca de alguns profissionais por especialização na Governança Corporativa e buscaram se especializar. Eles (58%) ‘teriam buscado cursos de pós-graduação […] enquanto poucos Graduandos (26%) disseram tê-lo feito durante seus estudos de graduação’. A baixa procura por parte dos acadêmicos, talvez tenha sido causada por desconhecerem a ‘importância do assunto ou por se mostrarem mais focados em dar conta de suas ementas’. Agora, cabe à Comissão utilizar os resultados para fomentar os conhecimentos dessa área, uma vez que ainda há muito que crescer. É necessário também uma postura responsável e proativa dos profissionais da Administração para que eles e as organizações sejam beneficiadas.

“Todo este material, obtido em nossas pesquisas, já vem sendo, e deverá continuar a ser, utilizado para nortear os Plano de Trabalho da Comissão. Este ano, já realizamos palestras e mesas redondas no Auditório do CRA-RJ, com a participação de convidados detentores de grande conhecimento sobre o assunto e temos outros ainda em perspectiva. […] O que se pode recomendar para os Administradores é a busca permanente por atualização e aprofundamento de seus conhecimentos. Não só em Governança Corporativa, mas em suas diferentes áreas de atuação.”, destacou Ribeiro.

Confira, agora a entrevista que o CRA-RJ fez com Roberto Ribeiro sobre as percepções ligadas às pesquisas e seus resultados.

CRA-RJ –  Qual a relevância dessa pesquisa?

Me. Roberto Ribeiro – A pesquisa realizada junto a profissionais registrados no CRA-RJ, em agosto de 2019, ganhou relevância na medida em que permitiu observar quatro campos de interesse da Comissão Especial de Governança Corporativa, listados a seguir, além de propiciar a oportunidade de realizar uma análise comparativa com estudo anterior, de dezembro de 2018, com graduandos de Administração.

Os campos de Interesse da Pesquisa com Administradores sobre o tema Governança Corporativa são: Autopercepção do respondente sobre conhecimentos de conceitos e práticas de GC; Graus de reconhecimento, atitude e uso das boas práticas observadas na organização em que tinha atuação profissional; Avaliação sobre a correlação existente entre a adoção de boas práticas e o desempenho das organizações em geral; Visão geral sobre o tema.

CRA-RJ –  Quais os principais resultados obtidos e o que representam?

Me. Roberto Ribeiro – Sempre em percentuais médios e aproximados, na medida em que a documentação da pesquisa explora detalhes:

  1. Poucos Administradores (28%) declararam deter conhecimento avançado ou intermediário nos três campos pesquisados (Fundamentos de GC, Órgãos de um Sistema de GC e Boas Práticas de GC) de forma simultânea (outras alternativas seriam: pouco ou nenhum conhecimento). Tal percentual se reduziu a cerca de 9% para graduandos, o que parece sinalizar que poucos têm visão clara do alcance destes conceitos.
  2. 57% dos Administradores pesquisados disseram que suas organizações reconheciam, valoravam e aplicavam conceitos de GC, mas 85% afirmaram que o mesmo não ocorreria com as demais organizações, principalmente, por desconhecimento, continuísmo ou acobertamento de práticas pouco recomendáveis. Embora paradoxal, tendemos a interpretar que tal percepção pode decorrer da maior familiaridade e observância de práticas vivenciadas, em detrimento de outras, desconhecidas.
  3. A maior parte dos Administradores mostrou-se dividida entre alta (31%), média (34%) e baixa (31%) correlação entre boas práticas de GC e o desempenho organizacional, contra 76% dos Graduandos que enxergaram média ou alta correlação entre os elementos mencionados. Tal constatação se mostra relevante, em particular no caso de Administradores, dada a existência de diversos estudos, pesquisas acadêmicas e bibliografia a comprovar o alto grau desta associação
  4. Os respondentes das duas pesquisas declararam-se convencidos da importância da GC nas organizações. 94% dos Administradores e 75% dos Graduandos, respectivamente, registraram ver o assunto como uma necessidade básica ou mesmo uma novidade interessante para a atuação profissional.

CRA-RJ –  Houve algum resultado que o senhor considera alarmante? Quais e por quê?

Me. Roberto Ribeiro – Não propriamente alarmante, mas parece merecer atenção o fato de que nossas faculdades parecem estar dando pouco foco a cadeiras exclusivas de Governança Corporativa, considerando a relevância do tema para a vida profissional dos acadêmicos.

Observou-se baixo contato declarado por Administradores (4%) e Graduandos (9%) com a GC, durante a graduação. Devemos levar em conta que o conhecimento de apenas partes isoladas deste conteúdo, quando há, tende a não ser suficiente para propiciar a compreensão do todo ou a real dimensão deste campo da Administração.

O contato com o mundo profissional, entretanto, pareceu sensibilizar Administradores que, em sua maioria (58%), teriam buscado cursos de pós-graduação sobre Governança Corporativa, enquanto poucos Graduandos (26%) disseram tê-lo feito durante seus estudos de graduação, talvez por desconhecer a importância do assunto ou por se mostrarem mais focados em dar conta de suas ementas.

CRA-RJ –  Houve algum aspecto que o senhor considera muito bom? Quais e por quê?

Me. Roberto Ribeiro – Sim. O interesse demonstrado pelos respondentes sobre o assunto nos apontou um caminho importante, que talvez indique a necessidade de repensarmos ementas acadêmicas e mesmo o oferecimento de cursos livres que possam complementar tal lacuna na formação de nossos Administradores. Palestras realizadas por representantes da Comissão Especial de Governança Corporativa do CRA-RJ junto a Faculdades de Administração nos últimos meses reforçaram esta percepção.

CRA-RJ –  O que será realizado a partir da obtenção dos resultados da pesquisa, por parte da Comissão?

Me. Roberto Ribeiro – Todo este material, obtido em nossas pesquisas, já vem sendo, e deverá continuar a ser, utilizado para nortear os Plano de Trabalho da Comissão. Este ano, já realizamos palestras e mesas redondas no Auditório do CRA-RJ, com a participação de convidados detentores de grande conhecimento sobre o assunto e temos ainda, em perspectiva:

  • Ampliar o debate sobre a incorporação de conceitos e práticas de GC em grades curriculares de cursos de graduação, de modo a estimular visão abrangente dos conceitos envolvidos e benefícios de sua aplicação;
  • Produzir e divulgar conteúdos com o objetivo de proporcionar maior aproximação de estudantes e profissionais da Administração com o tema Governança Corporativa;
  • Propor o desenvolvimento de cursos a serem ministrados, em diferentes níveis de proficiência, nas instalações da Universidade Corporativa do Administrador do CRA-RJ, oportunizando o debate e o aprofundamento no tema, segundo o grau de conhecimento dos participantes.

CRA-RJ –  Qual postura o Administrador deve assumir diante desses resultados?

Me. Roberto Ribeiro – O que se pode recomendar para os Administradores é a busca permanente por atualização e aprofundamento de seus conhecimentos. Não só em Governança Corporativa, mas em suas diferentes áreas de atuação. Vivemos a era do saber. Assim, para que o Administrador possa contribuir efetivamente para o desenvolvimento de sua organização, da sociedade e do país, mostra-se indispensável que esteja preparado para ocupar o disputado espaço em que merece estar.